Notícias

Novo estudo mostra efeitos da diabetes na retina

23/10/2017

Clarice Cudischevitch

Grupo da pesquisadora do INNT Karin Calaza observou que a exposição da retina à hiperglicemia leva a um aumento na produção de óxido nítrico, relacionado ao estresse oxidativo.

Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF) observou os efeitos de uma das doenças mais comuns da atualidade, a diabetes, na retina dos pacientes. A cientista do INNT Karin Calaza explicou o estudo, publicado na revista Experimental Eye Research.

Diabetes é uma doença crônica com mais de 400 milhões de pacientes no mundo. O Brasil é o quinto país em número de pacientes e gastos públicos com esse mal, que induz hiperglicemia somado a um quadro de inflamação sistêmica.

Embora haja tratamento para controlar a hiperglicemia, ainda há muitos pacientes diabéticos que apresentam desregulação glicêmica. Esse quadro está relacionado com o aparecimento de distúrbios/falência de vários órgãos, como a retina e o rim. Portanto, é uma doença que requer atenção, tanto para a prevenção quanto para o tratamento.

No caso da retina, o pior quadro é a retinopatia diabética, em que o paciente tem perda visual e pode levar a um quadro de cegueira completa. “Essa doença é classicamente vascular e tanto o diagnóstico como o tratamento disponível são focados neste aspecto. Porém, um conjunto de evidências demonstram que alterações neurais na retina ocorrem antes do quadro de retinopatia clássica se instalar”, explica Karin Calaza. “Portanto, nosso grupo estuda os efeitos da hiperglicemia aguda e crônica em períodos iniciais da diabetes para revelar os mecanismos que afetam a retina neural.”

Neste contexto, o artigo publicado pelo grupo mostrou o efeito agudo da exposição da retina à uma condição de hiperglicemia durante 30 minutos. Os pesquisadores utilizaram uma retina avascular com o objetivo de verificar as ações agudas de alta glicose diretamente nos neurônios, retirando a “interferência” do sistema vascular nas repostas neurais. “Verificamos que um curto período de alta glicose já é suficiente para causar aumento na produção de óxido nítrico (NO), mediador muito relacionado ao estresse oxidativo em retinas de animais/pacientes diabéticos”, contou Calaza.

Associado a esta resposta, há um aumento do conteúdo de GABA (ácido gama-aminobutírico, o principal neurotransmissor inibidor no sistema nervoso central dos mamíferos) intracelular, possivelmente devido a uma regulação dos transportadores de membrana (GAT-1 e GAT-3). Todas as alterações no sistema GABAérgico foram dependentes da atividade da enzima sintase do óxido nítrico. Portanto, este trabalho demonstra a alteração bem precoce na sinalização de óxido nítrico, um mediador conhecidamente envolvido nas alterações vasculares.

“Como GABA é o principal neurotransmissor inibitório da retina, alterações na sua disponibilidade podem impactar na excitabilidade do tecido e na susceptibilidade a insultos”, acrescentou a doutora em biofísica. “Assim, é possível que o desequilíbrio da sinalização de óxido nítrico e o impacto nos circuitos neurais seja um fenômeno muito precoce em condições hiperglicêmicas.”

Outra novidade foi demonstrar a importância de GAT-3 no controle da disponibilidade de GABA na retina. Até então, as evidências apontavam para o papel praticamente exclusivo de GAT-1 neste fenômeno. Porém, pelo menos em condições hiperglicêmicas, a inibição de GAT-3 bloqueou os efeitos de aumento da produção de NO no conteúdo de GABA. Assim, novos estudos serão necessários para caracterizar o papel de GAT-3 na disponibilidade de GABA, sua regulação e função em situações fisiológicas.

Além disso, os mecanismos celulares e moleculares envolvidos na resposta das células à alta glicose com impacto na produção de óxido nítrico ainda precisam ser esclarecidos.

Para ter acesso ao artigo, clique aqui.