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Pesquisadores do INNT mostram estudos sobre Alzheimer, epilepsia e retina

25/10/2017

Murilo Lobo Braga

Pesquisadores se reúnem no 4º Encontro Anual do INNT

No 4º Encontro Anual do INNT, os pesquisadores tiveram a oportunidade de expor seus estudos e o andamento de suas pesquisas, além, é claro, de saber como andam os trabalhos dos colegas. Descrevemos aqui um pouco do que cada integrante comentou, com foco nas pesquisas sobre doença de Alzheimer, epilepsia e estudos sobre a retina. Confira mais sobre outras pesquisas.

 

Buscando um diagnóstico precoce de Alzheimer
Pesquisador da UFMG, Paulo Caramelli observou a necessidade de mudar o paradigma em relação ao diagnóstico do Alzheimer, a doença neurodegenerativa mais comum do mundo. Geralmente, começa-se a diagnosticar na sua fase demencial, mas nos últimos 20 anos ficou evidente que há uma fase pré-clínica, em que há uma redução da função cognitiva, seguida pela demência. Essa constatação é importante para frear o processo patológico subjacente. Assim, Caramelli estuda a evolução temporal dos biomarcadores – elementos biológicos – que permitem um diagnóstico mais preciso dessa condição. Um primeiro evento na cascata desse processo neurodegenerativo, por exemplo, é um acúmulo de peptídeo beta-amiloide.

 

A influência dos astrócitos no Alzheimer
O foco da pesquisa de Flavia Gomes é desvendar quais são os mecanismos de interação entre astrócitos e sinapses e qual o impacto de disfunção de um déficit dessas interações para o aparecimento de algumas doenças. Um estudo recente de sua equipe avançou bastante nesse sentido ao descobrir como os astrócitos, células do sistema nervoso importantes para a transmissão das mensagens químicas, são afetados no caso do Alzheimer. Nessa doença, há a presença de astrócitos menores que o normal, que produzem uma menor concentração da substância TGF-b1 porque são atacados por oligômeros, ligados a inflamação. A TGF-1 é essencial para a comunicação de sinais nervosos, as sinapses. Assim, os pesquisadores injetaram a substância nos modelos animais, que recuperaram a memória e outras funções cerebrais.


Sintomas além da perda de memória
Quando se fala em Alzheimer, a primeira coisa em que se pensa é memória e esquecimento, objetos da maioria dos estudos. Quase ninguém associa a doença à depressão e apatia, mas esses estão entre os sintomas mais frequentes. O químico da UFRJ Sergio Ferreira pesquisa justamente a conexão entre a perda de memória e os sintomas neuropsiquiátricos, não cognitivos, do Alzheimer. “O paciente que vai ao consultório se apresenta triste porque começou a perceber que está ficando doente ou porque há algum substrato neuroquímico, molecular?”, questionou. A depressão é um fator de risco importante para a doença de Alzheimer, de modo que um histórico depressivo na juventude pode aumentar o risco de se desenvolver a doença na terceira idade. Uma das hipóteses em relação a essa conexão, trabalhadas pelo grupo de Ferreira, é a de que o acúmulo no cérebro de oligômeros do peptídeo beta-amiloide, que induz várias características no Alzheimer, como a perda de sinapses e hiperfosforização, também pode estar ligado à depressão.


Relação entre diabetes e demência
A interação entre desordens metabólicas e demência, bem como as oportunidades terapêuticas em comum, são o tema da pesquisa da doutora em química biológica da UFRJ Fernanda De Felice, que foi representada pelo pesquisador do seu grupo Marcelo Vieira. Mais de 400 milhões de pessoas no mundo vivem com diabetes e 50 milhões com demência, e esses números devem atingir, respectivamente, 640 milhões e 100 milhões até 2040. Estudos epidemiológicos mostraram que pacientes com diabetes têm risco aumentado de desenvolver doenças com demência, como Alzheimer. “No laboratório, utilizamos modelos in vitro, ratos, macacos e humanos para entender como as modificações no cérebro levam à perda de cognição e memória e também como aumentam a possibilidade de ter diabetes, e vice versa.” Ou seja, a epidemia tanto de obesidade quanto de diabetes vem tendo impactos no cérebro que levam a comprometimentos cognitivos, como na resposta inflamatória, função sináptica e atrofia cerebral. O grupo observou que as neurotoxinas chamadas oligômeros de abeta são capazes de desenvolver resistência à insulina e, em contrapartida, o tratamento com drogas que inibem a ação da insulina é capaz de proteger os neurônios desses oligômeros.

 

O cérebro e a epilepsia
O pesquisador Esper Cavalheiro se dedica ao estudo do mecanismo do lobo temporal (parte específica do cérebro) em pacientes com epilepsia. Foram analisados 26 pacientes sem seleção prévia, vindos diretamente de hospitais. Com base em uma classificação internacional recente de três tipos básicos de lesão, o concluiu que o giro dentado apresenta todos os padrões de resposta encontrados na pesquisa.

 

Epilepsia em modelo computacional
O grupo de pesquisa de Antônio Carlos Almeida estuda a relação da epilepsia com os mecanismos não sinápticos no cérebro — tais mecanismos, em caso de epilepsia, causam falhas na sinapse. O estudo se dá em um modelo computacional que permite analisar a circuitaria e o controle da homeostase iônica. Trata-se de um esquema complexo, que mostra neurônios, componentes da glia (células do sistema nervoso central) e o espaço entre as células. Atualmente, o interesse do grupo é usar a optogenética: técnica que mescla luz, análise genética e bioengenharia, permitindo outro estudo dos circuitos neuronais.

 

Epilepsia, danos neuronais e memória
O médico da Unicamp Fernando Cendes pesquisa a epilepsia. Ao observar a redes de danos no cérebro tanto estrutural quanto funcional relacionada às crises epiléticas, notou a influência do tempo e da frequência das crises. “Vimos que há pacientes que têm esclerose hipocampal bastante nítida, enquanto outros não têm uma alteração vista pela técnica de neuroimagem, mas também sofrem uma progressão de dano neuronal ao longo do tempo. Isso ocorre não apenas com quem tem frequência de crises, mas também com os que têm a doença controlada.” Sobre memória, sempre se pensou que esta era afetada pela frequência de crises, mas várias evidências mostram que não há diferença relacionada a esse aspecto em grupos com diferentes tipos de crise e pareados com o mesmo grau de hipotrofia hipocampal. Ou seja, a memória não está relacionada às crises, mas ao dano hipocampal propriamente dito. “Indivíduos que têm lesão à esquerda ou à direita têm padrões diferentes de rede na tentativa de compensar esse déficit de memória”, explicou.

 

Modulação das memórias
Neurocientista reconhecido internacionalmente, Ivan Izquierdo pesquisa os mecanismos de extinção da memória. Ele foi representado na apresentação por Jociane Myskiw, pesquisadora do Centro de Memória de Porto Alegre, do qual é coordenador. Seu estudo investiga as estruturas cerebrais e mecanismos moleculares envolvidos com a aquisição, consolidação, evocação, reconsolidação e extinção de memórias. “A extinção não é esquecimento, é a formação de uma nova memória, um novo aprendizado, mas a memória original retorna com o passar do tempo”, explicou Myskiw. Para esse estudo, utiliza-se a tarefa de medo condicionado a um contexto ameaçador, em que o animal aprende um estímulo aversivo, condicionado em um contexto neutro, além da modulação das memórias por introdução de uma novidade e por reconhecimento de objetos. “Conseguimos resultados interessantes. Modulamos a extinção da memória tanto de forma farmacológica quanto comportamental.”

 

As influências da diabetes na retina
Sentido que participa de vários processos sociais e emocionais, a visão é o campo de estudo da pesquisadora Karin Calaza. Com seu grupo de estudos, ela busca novos alvos terapêuticos na retinopatia diabética. Em uma de suas linhas de pesquisa, Karin estuda as alterações neurais na retina relacionadas à diabetes. O grupo tem testado o efeito de diversas substâncias envolvidas nos processos da diabetes na visão, que podem levar à morte de células. Nos próximos passos, os pesquisadores podem se debruçar sobre a cafeína, que teria efeito protetor nos neurônios da retina, aumentando as proteínas relacionadas com a sobrevivência.

 

Relação da retina e da dopamina
Pesquisador da UFF, Roberto Paes de Carvalho estuda a dopamina e as vias de sinalização na retina. O trabalho é feito com base em retinas de pintinho (retina in vivo) e culturas de neurônios e glia. Em sua fala, Carvalho concentrou-se na dopamina, mas frisou que as vias de sinalização pesquisadas também envolvem glutamato, adenosina, óxido nítrico e vitamina C. No que diz respeito à dopamina, o grupo encontrou uma via que já era conhecida em linfócitos, mas ainda não havia sido descrita no sistema nervoso. Os questionamentos agora devem revelar se disfunções nesta via dopaminérgica têm alguma importância em doenças psiquiátricas, entre outros esclarecimentos.