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Plantas, hormônios, música e aromas são abordados em pesquisas do INNT

25/10/2017

Murilo Lobo Braga

Pesquisadores se reúnem no 4º Encontro Anual do INNT

No 4º Encontro Anual do INNT, os pesquisadores tiveram a oportunidade de expor seus estudos e o andamento de suas pesquisas, além, é claro, de saber como andam os trabalhos dos colegas. Descrevemos aqui um pouco do que cada integrante comentou, com foco em pesquisas variadas, que abordam plantas, hormônios, música e até aromas. Confira mais sobre outras pesquisas.

 

A ciência das emoções
Os estudos de Jorge Moll foram apresentados pelo pesquisador Tiago Bortolini, que falou sobre os neuromarcadores das emoções. O grupo de pesquisa trabalha, atualmente, em cinco projetos. Em um deles, pessoas escutam peças musicais e, por meio de encoding (descoberta de padrões no cérebro que revelem um estilo musical) e decoding (descobrir um estilo a partir do padrão encontrado), os cientistas tentam descobrir a música por meio da análise de dados. A acurácia média é de 75%. Outro trabalho interessante é relacionado ao aroma do café. O grupo faz com que um indivíduo sinta o aroma e, depois, analisa os efeitos no sistema de recompensa.

 

A microglia e a progressão tumoral
Microglia é um conjunto de células que tem papel fundamental no sistema nervoso central, como a regulação da morte celular e diferenciação de células da glia. É este o foco dos estudos da pesquisadora Flavia Lima, da UFRJ. Ela analisa especificamente a influência da microglia na progressão tumoral. “Em um contexto patológico, é interessante que a microglia, dependendo do tipo de lesão e severidade, se comporta de maneiras diferentes”, diz Lima. Em sua fala, ela frisou que, em tumores, a microglia age secretando fatores favoráveis à progressão tumoral. Sua pesquisa quer revelar que fatores seriam esses.

 

Especificações da via Wnt
Pesquisador da UFRJ, José Garcia Abreu Jr. estuda as implicações da via Wnt (relacionada à proliferação celular) no comprometimento neural. O grupo de pesquisa trabalha com diversas questões relacionadas ao tema. Entre elas, há, por exemplo, a necessidade de investigar de que forma exatamente os neurônios são afetados pela via e como o funcionamento anormal da via leva a malformações cerebrais. “Doenças neurodegenerativas estão relacionadas a essas desordens neuronais que podem ser modificadas pela modulação da via Wnt”, explica Abreu Jr.

 

As conexões cerebrais
Atual coordenador do INNT, Roberto Lent se concentra no estudo das conexões cerebrais. Em sua fala, o pesquisador explicou que a neuroplasticidade é a capacidade que o cérebro tem de responder aos ambientes interno e externo — e isso tem influência decisiva no desenvolvimento do sistema nervoso central. Uma das questões norteadoras de seu trabalho é: quantos neurônios tem um recém-nascido? E como se altera a celularidade ao longo da vida? Ao fim da apresentação, Lent mostrou um experimento com a perspectiva de seus estudos em macroescala. O movimento dos olhos de um aluno em sala de aula foi mapeado. Observou-se que o aluno, durante a aula, olhava mais para os olhos da professora do que para a lousa, o que mostra a relevância da empatia do estudante com o profissional de ensino.

 

Cérebro e hormônios
Pesquisador da USP, José Donato Jr. falou sobre a ação hormonal no controle de funções neurais. Seus estudos são focados especificamente na regulação cerebral da fome, trabalhando com o hipotálamo. Em camundongos, a ideia é entender o desenvolvimento de doenças metabólicas, diabetes mellitus tipo 2 e obesidade. “Estas devem ser tratadas como doenças neurodegenerativas. São doenças senis, há anos eram condições que apareciam em idosos. Hoje o que temos são epidemias”, explicou o pesquisador. Nesse contexto, um dos hormônios mais analisados é a leptina, foco dos estudos de Donato. A substância é produzida pelas células do tecido adiposo e fornecem para o cérebro informações sobre a quantidade energética armazenada no organismo. Regula, assim, os circuitos relacionados à fome. Em pessoas obesas, há resistência à leptina, com pouca resposta do hipotálamo. “Acreditamos que a causa somática da obesidade é essa”, diz o pesquisador. A ideia agora é, a partir destes caminhos, encontrar possibilidades de terapia para a obesidade.

 

A química do traumatismo craniano
Pesquisador da UFRGS, Roska Portela tem estudos focados em traumatismo crânio-encefálico e biomarcadores. Em sua fala, ele explicou que o traumatismo é uma deformação do cérebro causada por mecanismos de aceleração e desaceleração, ou pela penetração de algum objeto. As consequências da agressão podem se dividir em mecanismos primários (lesão inicial) e secundários (sequência de eventos bioquímicos, que geram morte ou desenvolvimento de doenças neuropsiquiátricas). A ideia é usar biomarcadores para desvendar os mecanismos e avaliar as respostas às intervenções terapêuticas.

 

O cérebro e a botânica
Representante da Bahia, a pesquisadora Maria de Fátima Dias Costa estuda a flora de seu estado para buscar substâncias que tenham ação no cérebro. Plantas como n. caninum mostram efeito na glia e sua modulação (no que diz respeito à neurotoxicidade e neuroproteção). Flavonoides extraídos do vegetal podem induzir a diferenciação neuronal e o crescimento neurítico. O objetivo, agora, é entender o comportamento das células corticais depois da exposição a substâncias de três espécies da Chapada Diamantina, apontadas na literatura como capazes de realizar atividades neurogênicas e antigliomas.

 

Minicérebros para desvendar doenças
Pesquisador da UFRJ e do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino, Stevens Rehen utiliza a reprogramação celular – técnica que “transforma” células embrionárias, originadas principalmente na pele e urina, em outras células do corpo – para o estudo de doenças como zika e esquizofrenia. O grupo avaliou que não há alteração cromossômica associada a esse distúrbio mental, mas há outras variações, como o aumento de estresse oxidativo. Rehen também pesquisa a esquizofrenia desenvolvendo tecidos cerebrais vivos a partir de células-tronco, formando os chamados minicérebros. Por meio desses estudos, observou outras alterações, entre elas em relação à vascularização, em células esquizofrênicas.

 

Diazepam contra o efeito de drogas de abuso
O papel da dopamina na aprendizagem é um dos focos da pesquisa do bioquímico da UFPR Claudio Da Cunha. Ele utiliza a técnica da voltametria cíclica de varredura rápida para o estudo de drogas que afetam a liberação sináptica de dopamina. A partir disso, estuda a reconsolidação da memória, transtorno de estresse pós-traumático, neuropsicofarmacologia do transtorno de ansiedade, da doença de Parkinson, do Alzheimer, da depressão, entre outros. “Em um dos estudos, estamos mostrando que a lesão parcial de 70% dos neurônios da substância negra promove aos animais a incapacidade de aprender uma tarefa aversiva, mas ele tem ainda capacidade de aprender uma equivalência dessa tarefa repetitiva”, contou Cunha. Outro trabalho mostrou que o ansiolítico diazepam tem o poder de reverter o efeito da anfetamina de aumentar a liberação de dopamina no encéfalo. Saiba mais aqui.

 

Canabinoides entram em cena
Em um estudo conduzido em colaboração com a Universidade de Coimbra, em Portugal, o biofísico da UFRJ Ricardo Reis observou o impacto dos canabinoides contra doenças neurológicas. “Os canabinoides podem ser úteis frente a problemas como obesidade e depressão. O canabidiol, que está no extrato da maconha, vem melhorando o quadro de crianças com autismo, sintomas psicóticos da esquizofrenia, entre outras doenças”, comentou Reis, cujo trabalho com canabinoides já produziu uma patente, que pode vir a se transformar em medicamento.

 

Avançando no estudo dos gliomas
Pesquisador do Instituto Estadual do Cérebro Paulo Niemeyer e da UFRJ, Vivaldo Moura Neto estuda a biologia celular e molecular dos gliomas humanos, que são tumores do sistema nervoso central, difíceis de serem diagnosticados. As glias são células que preenchem os espaços no cérebro entre um neurônio e outro. Além de nutrir o cérebro, elas podem transformar-se em neurônios, por terem propriedades de células-tronco. “As células gliais têm papel de interação com as demais células do sistema nervoso e outras associadas, como as células do sangue”, informou. Um dos maiores desafios nesse campo de pesquisa, que vem sendo estudado por Moura Neto, são os glioblastomas, o tipo de glioma mais grave e agressivo, com expectativa de 12 meses de vida para o paciente.